Indignação

18/12/2005

 

Há dias venho ensaiando este texto sem encontrar nas palavras a dimensão exata de minha indignação. Indignação esta decorrente da tremenda reversão de expectativa acumulada, nos últimos tempos, pela total e absoluta desconsideração de nossos políticos, não apenas para conosco, mas para com todo e qualquer preceito de Moral e de Ética.

 

Moral, como sabemos, é a ciência, ou a arte, do bem. Ela tem por objeto determinar as condições gerais de retidão dos atos humanos. Sócrates já dizia que Moral outra coisa não é, que viver como reclamam a probidade e a justiça. Ética é a prática da Moral. Ela se revela como o conjunto dos preceitos morais, que regram a conduta.

 

Muito se tem dito e escrito acerca da benevolência, da passividade, da mansidão do povo brasileiro. Dizem até que por muito menos, povos bem próximos a nós, como nossos “hermanos” argentinos, já teriam tomado atitudes muito mais drásticas. Porém não. Com resignação, com o peito cheio de esperança, temos aguardado por “dias melhores”. Sempre nos autoconsolando com o desejo de que, o amadurecimento de nossa democracia, traga consigo, o respeito público e a dignidade na conduta, de nossos representantes.

 

A imprensa mantém digamos, uma postura respeitosa, evitando colocar mais lenha na fogueira. Notícias e editoriais apenas arranham a dimensão desta verdadeira “bandalha” nacional. Talvez buscando evitar acirrar os ânimos e com isso por em risco nossas instituições. Porém essa quietude tem trazido para nossos políticos a perda total de respeito, de medo, na certeza da impunidade decorrente da falta de memória popular.

 

Independentemente do fato de trabalhar apenas três dias por semana, enquanto qualquer trabalhador normal trabalha pelo menos cinco. Independentemente do fato de ganharem salários e benefícios estratosféricos, incompatíveis para com a realidade econômica nacional. Independentemente do fato de desperdiçarem tempo e recursos preciosos em manobras políticas rasteiras, ao invés de votarem leis e políticas indispensáveis e ansiosamente aguardadas. Independentemente do fato de gozarem três meses de férias anuais, quando qualquer mortal tem direito a apenas um, e isso quando empregado. Nossos congressistas, baseados em uma legislação imoral, se autoconvocam durante o chamado “recesso parlamentar”, impondo à Nação um custo adicional injustificável.

 

Digo legislação imoral, pois essa legislação, por eles mesmos nos outorgada, permite que esses senhores legislem em causa própria, o que aparentemente é o que apenas fazem, votando à socapa da sociedade, aumentos infames de seus, já inflados, salários. Determinando benefícios e direitos verdadeiramente ofensivos para com um povo tão sofrido, a quem tudo, ou quase tudo é negado. Se autoconvocando para fazer, durante o chamado período de recesso parlamentar, aquilo que não fizeram durante o período legislativo normal e, o que é pior, não farão também durante essa famigerada autoconvocação, apropriando-se, cada um, de adicionais vinte e cinco mil reais, aproximadamente, 104 salários mínimos.

 

Essa autoconvocação nos foi imposta já a partir de 15 de dezembro. Isso mesmo, imposta a nós contribuintes, pois os congressistas estão liberados de comparecer ao plenário até o dia 14 de janeiro, numa espécie de “recesso branco”, ganhando lautos salários adicionais para ficarem em casa. Pensando bem talvez até essa solução seja melhor para a Nação, pelo menos em casa eles estão mais tolhidos das práticas nefastas com que nos têm brindado.

 

Essa festança custará aos cofres públicos, cerca de R$ 100 milhões de reais, em adição ao já vultuoso custo normal deste Congresso inoperante, que a todos só faz envergonhar com suas infames práticas. Custo adicional esse que permitiria, por exemplo, a distribuição das cestas básicas, do decantado programa “Bolsa Família”, destinadas a famílias assentadas em Mato Grosso do Sul, cujo transporte tem sido custeado, impropriamente, pelos próprios assentados, na manifestação cínica do responsável pela distribuição das referidas cestas: - “Após a liberação do benefício, o transporte é de responsabilidade, custo e risco do beneficiado”. Colocando com isso, comunidades carentes de assentamentos paupérrimos, nas mãos de espertos atravessadores, que lhes cobram pelo benefício que toda a população brasileira paga para que seja gratuito.

 

A despeito do acinte que é a apropriação imoral, ainda que legal, desses recursos. Não bastasse a insensibilidade política e social de nossos representantes. Ainda ousam se expressar com um cinismo digno do mais completo repúdio e execração pública, como nos dizeres do Vice-presidente da Câmara, deputado José Thomaz (isso mesmo com “tê-agá e zê”), Nonô - é brincadeira esse nome:

 

­                “A decisão (convocação), foi um pretexto para manter as CPIs em funcionamento... Tudo o mais é cereja no chantili, é peça decorativa”. (Cerejinha mais cara essa, apenas para manter funcionando CPIs, que não passam de palanques eleitorais subliminares);

 

­                “Só passa (é aprovado), em janeiro e fevereiro piscina de criança, que dá pé pra todo mundo”. (E pagaremos mais cem milhões por isso).

 

Dizeres como esse nos enchem de revolta, tamanha manifestação de desconsideração para com o povo, que nos remetem a Castro Alves, em seu Navio Negreiro:

 

            Existe um povo que a bandeira empresta

            P’ra cobrir tanta infâmia e covardia!...

            E deixa transformar-se nessa festa

            Em manto impuro de bacante* fria!...

 

“Foi bonita a festa oh pá”, porém nossa jovem democracia agoniza sufocando no lodaçal do cinismo de verdadeiros bandoleiros, facínoras políticos.

 

Sem querer ser um desmancha prazeres, porém já o sendo, gostaria de registrar que não acredito em ações ou mudanças imediatas em política. A prática democrática é algo que se aprende vivendo, de forma empírica, errando, corrigindo, tornando a errar, etc.

 

Considero a atitude desses corruptos algo parecido com genocídio, pois milhares de enfermos morrem às portas de hospitais desequipados, velhos e aposentados morrem de trabalhar ou de desatendimento pelas míseras pensões que recebem ao final de suas vidas, milhares de crianças morrem no abandono de nossas instituições, para que esses pseudo "representantes do povo" se locupletem.

 

O primeiro impulso é de passar a todos pelo fio da espada para que seu sangue purifique a Pátria amada, mas a história nos tem mostrado que essa tutela popular não resolve os problemas de uma Nação, os ratos se reproduzem com extrema velocidade e a possibilidade de extingui-los é quase nula.

 

A única maneira de se não acabar, pelo menos minimizar consideravelmente essas práticas, é através da educação e ela se consegue através da disseminação de idéias e, infelizmente para a nossa geração, de tempo. Digo infelizmente porque apesar de havermos sonhado com tanta intensidade em mudar o mundo, legaremos aos nossos filhos algo muito pouco distinto daquilo que recebemos, porém não nos devemos levar pela desesperança, nem tomar nenhuma atitude imediatista e impensada que poderá acarretar um mal ainda maior. 

 

 

*          bacante: (Houaiss) – sentido figurado, mulher licenciosa, depravada.

 

68-114 Brasil
Abel Brasil Pedro - Asp. Of. Av. R2