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Apologia
à Isabelinha
Não
há quem tenha vivido em Barbacena e que não tenha visto, lido a
respeito, ou mesmo ouvido falar de uma figura frágil, pobre, solitária,
andarilha, e por que até não dizer, lendária naquela cidade?!
| Isabelinha...
apenas, Isabelinha. Era como todos a conheciam na histórica
Barbacena. Aparentava ser uma pessoa frágil, mas como poderia ser
chamada de frágil uma figura que anos e anos demonstrou tanto
vigor físico, enquanto perambulava pelos quatro cantos da cidade
-- em busca de não se sabe o quê -- subindo e descendo incontáveis
vezes as ruas Barbacenenses, que só quem lá esteve bem sabe quão
íngremes e acidentadas são?... Aparentava ser uma pessoa pobre,
quiçá despojada de bens materiais, mas não pobre de espírito,
porquanto na sua simplicidade e enquanto em conversa com qualquer
um de nós, transmitia-nos ânimo, alento, e sobretudo uma paz
espiritual infinda. Aparentava ser uma pessoa solitária. Mas para
ela mesma, por convicção, não o era; vivia a afirmar que estava
sempre acompanhada por Deus, pelo seu cão -- amigo fiel que a
acompanhou por muitos anos -- e pelos "lindos passarinhos,
azuis como a cor do manto de Nossa Senhora", num plágio à máxima
criada por ela mesma e tornada popular entre nós... |

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Era
uma andarilha, talvez sem rumo, ou, quem sabe, em busca de algo mais
sublime, num plano bem mais elevado do que permitia a nossa vã filosofia
entender...
Ao contrário da maioria dos personagens históricos, dos mártires, dos
heróis, de qualquer personalidade marcante da nossa Sociedade, que só se
tornam lendários post mortem, Isabelinha ainda em vida já era uma lenda.
E eram tantas as histórias a seu respeito, histórias estas que sempre
procuravam encontrar uma explicação plausível para justificar a vida de
privações por que passava aquela mulher. E falava-se sobre um possível
desengano amoroso que ela teria vivido na sua juventude; e falava-se sobre
um suposto desentendimento com a família, quando jovem; e falava-se da
sua procedência de família rica; e falava-se de tantas outras coisas que
não pudemos ser testemunhas, já que os fatos ocorridos (se ocorreram)
aconteceram quando provavelmente nem nascidos éramos, tornando-se,
portanto, para nós, uma lenda. Mas uma parte dessa lenda tivemos o privilégio
de vivenciar... a lenda viva.
Quem não se lembra das vezes em que Isabelinha participava dos festejos
da EPCAR, fosse o aniversário da escola, fosse a comemoração da Semana
da Asa, ou o desfile de Sete de Setembro, quando com seu lencinho branco
acenava entre tantos, saudando-nos enquanto marchávamos garbosos pela então
Rua 15 de Novembro, pela "Praça dos Macacos", pela "Praça
do Globo"?...
Quem não se lembra das vezes que fazíamos a famigerada marcha dos onze,
quinze, dezoito quilômetros, indo até o Grogotó, mas antes passando
pela Rua Cruz das Almas, rua onde ela morava, sendo sempre saudados por
ela da janela da sua humilde casa, ou mesmo de uma das calçadas?
Quem não se lembra da Isabelinha que colocava seu melhor vestido, se
maquilava ao seu melhor estilo, bolsa a tiracolo, lábios carmins, de um
vermelho de fazer inveja à mais vermelha das rosas Barbacenenses? Tudo
para ficar tão bonita quanto possível e comparecer aos eventos para os
quais era convidada, sem desapontar os demais convidados?
Quem não se lembra da Isabelinha que tantas vezes subiu nos palanques,
quer dentro, quer fora da escola, ladeando autoridades das mais
distintas?...
Quem não se lembra das vezes em que sendo-lhe concedida a palavra fazia
discursos dignos de fazer inveja ao mais douto dos doutos, tal o esmero
com que usava a linguagem?
Ah, Isabelinha, por que você partiu?! Por que deixou esse vazio na história
de tantos meninos que um dia, ainda inseguros, imaturos, longe de seus
lares e famílias, viam na sua figura um sentimento que afinava-se com a
solidão de cada um deles? Você partiu e nós estamos todos de luto.
Enlutados, sim, porém sob o consolo de saber que -- como nos faz ver um
dos nossos companheiros de Turma – “há mais uma estrela brilhando no
céu”, tornando-o ainda mais azul face à pureza d’alma do ser etéreo
que ora chega às alturas. Estamos certos de que lá de cima você estará
sempre brilhando por nós e para nós, como que a iluminar o longo caminho
que ainda temos a percorrer. Temos certeza que, da forma como nos amava e
por ter demonstrado ser tão forte, você continuará lá de cima a nos
dar forças aqui embaixo, assim como dará conforto àqueles companheiros
que antes de nós partiram e que agora estarão aí em cima, sob a sua
proteção. Obrigado por ter existido entre nós e nos ter dado, de várias
formas, lições de vida. Que Nossa Senhora a abençoe e guarde sob o
mesmo manto azul por você tão reverenciado na vida terrena.
Descanse em paz.
Passarinho
67-382 Santos Oliveira |